Do irracionalismo natural
"se onipotente é a técnica onisciente é a ciência natural" -Otto Maria Carpeaux
Fofoca na saída
Biscaldi: Ô Otávio! Me espera, pra quê tanta pressa para ir pra casa?
Otávio: É simples, não aguento mais a escola. Agora que a direção tá mandando tirar da sala por qualquer coisa, eu passo o dia pensando na hora que o abençoado do quinto sinal vai bater.
Biscaldi: Tá, tanto faz, é que eu precisava falar contigo.
Otávio: O que você quer?
Biscaldi: É verdade que o Freitas passou a aula discutindo com o Fernando ontem? Disseram que ele chegou a escrever uma carta pra ele hoje, indagando-o sobre a inteligibilidade da natureza, é verdade isso tudo?
Otávio: É sim, não consegui prestar atenção em nada do que eles falaram, pelo menos perdemos uma aula de física e deu pra descansar um pouco.
Biscaldi: Caramba, como ele tem coragem de discutir com o Fernando assim? Além de que nunca vi esse assunto na apostila… como eles entraram nessa discussão?
Otávio: Não sei, como já disse, não consegui prestar atenção em nada que eles disseram.
Biscaldi: Vacilão, eu passei o dia pensando nisso, mas obrigado de qualquer forma.
Otávio: Calma ae, eu tenho uma foto da carta que o Freitas escreveu para o professor, serve?
Biscaldi: Pra caramba, Valeu Otávio!
Otávio: Por nada.
A carta
Ao querido professor Fernando
Caro professor,
Ontem em sala de aula acabei por me exaltar ao ouvir o senhor proferir coisas das quais discordo profundamente, peço desculpas por ter agido de maneira tão bárbara com o senhor.
Venho então, por meio desta carta, fazer um breve comentário visando demonstrar como a existência de Deus pode ser um apoio necessário para manter a estabilidade da ciência. Perdoe-me caso acabe muito me alongando, é que qualquer um desses assuntos é de vital importância para mim, pois é em Deus que vejo a medida de todas as coisas. Por isso a questão pra mim se torna de importância existencial.
Considere, então, as minhas palavras como as de alguém que devota a própria vida às suas ideias, as de alguém que coloca toda alma por detrás das palavras.
Primeiramente sempre me foi estranho a oposição de que o universo ser regido por leis naturais pudesse contradizer a existência de Deus, pelo contrário, sempre me pareceu que a reforça.
Recentemente, li um artigo sobre teoria atomística que me reforçou ainda mais minha ideia, que é a seguinte: se o universo é constituído de átomos, então, na medida em que ele é regido de maneira impiedosa por leis da física, os átomos também deveriam o ser; pois como poderia o todo ser regido por leis que não regem as partes que o compõe? Seria então natural que as coisas seguissem como digo, certo?
Entretanto, ocorreu que os estudos avançaram e culminaram no indeterminismo de Planck, citando Otto Maria Carpeaux: “O rádio se desintegra emitindo radiação, isto é, a radiação consiste em partículas serem arremessadas para fora do rádio! Quais partículas, porém? Suponhamos que dez dessas partículas estejam todas bem ordenadas diante de nós e que observamos como as partículas 4, 7 e 9 são arremessadas para fora. Se as leis da natureza vigorarem de fato, então novamente serão, da próxima vez, as partículas 4, 7 e 9. Mas eis que as partículas se comportam como gente volúvel. Nessa próxima vez, tranquilas permanecem as partículas 4, 7 e 9, enquanto saltam para fora as partículas 1, 5 ou 8. Por quê? Ninguém sabe dizer. E como será da próxima vez? Ninguém sabe predizer. Enquanto estas linhas vêm sendo escritas, uma lâmpada elétrica ilumina o papel. Se, com todo o contingente de instrumentos científicos de medida, acompanharmos o que ficam fazendo os quanta de luz no filamento incandescente, presenciaremos o mesmo espetáculo. Esses pequeníssimos corpúsculos não fazem caso de lei nenhuma e não seguem senão o seu próprio capricho.”1
O problema da ciência ateia é que: na medida em que a realidade é constituída de átomos, e estes tem um comportamento regido pelas probabilidades, a ciência se torna uma tentativa de descrever leis num universo governado por nada além do acaso.
Não é necessário pensar muito para perceber que este seria o fim da ciência natural, a única forma de manter a física de pé - já que os elementos naturais não são o suficiente para sustentar a ideia de um universo devidamente ordenado - é assumindo que há algo que mantém a estabilidade da ordem natural vigente, assim garantindo um universo regido por leis que os átomos não desobedeceriam nunca.
Assim vejo que só há dois caminhos para a ciência natural:
Seu fim com o irracionalismo
Sua renovação com base na fé em Deus
Posso estar cometendo um erro de principiante em meu pensamento, entretanto, o naturalismo antigo fracassou, e me parece que o moderno também fracassará.
Espero até a próxima aula pela sua resposta.
Ass: Pedro Freitas
“A gravidade pode colocar os planetas em movimento, mas sem o poder divino, nunca poderia colocá-los num movimento rotatório como eles estão ao redor do Sol. Portanto, sou compelido a atribuir a estrutura deste Sistema a um agente inteligente” - Sir. Isaac Newton2
Se leu até aqui, por favor considere se inscrever e apoiar meus estudos.
Otto Maria Carpeaux no livro “Caminhos para roma”.
NEWTON, Isaac. Carta a Richard Bentley, 1692–1693.


Muito criativo! Consegui mergulhar na cena. Ótimo!